Claraaa! Para Casa: A Carta

Postado: 26 out 2020 | 0 comentários

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A Carta

Brasília, 2003.

O ano de 2003 foi um ano mais tranquilo porque a gente se encontrava fora do nosso bairro. Clara inventou para mãe dela que não falava mais comigo, eu sumi da rua dela, e a gente se encontrava em quadras muito distante da que morávamos.

O Thiago continuava namorando minha irmã e eu fiz amizade com a irmã do Thiago, Letícia, e com o irmão mais novo, o Matheus. Eles moravam com os avós do Thiago na mesma quadra que eu morava, mas em breve se mudariam para a casa do Thiago, que era na mesma rua da Clara, com a mãe e o padrasto.

Matheus era a figura gay mais próxima que eu tinha na adolescência, sabia que ele logo assumiria. Ficamos muito próximos, eu adorava a família do Thiago, então um dia a gente se juntou para jantar lá na casa do Thiago e ele chamou a Clara. Nós acabamos ficamos mais próximas da Letícia, contamos sobre a nossa relação e ela, super madura, entendeu. Deu o maior apoio e quis ser cada vez mais presente na nossa vida.

A mãe da Clara conheceu Letícia e foi com a cara dela, um milagre, pois a mãe da Clara nunca gostava de ninguém. Passamos, então, a ter uma facilidade… Letícia passava na casa da Clara, a mãe dela a deixava sair com a Letícia para qualquer lugar, daí elas iam para a casa do Thiago e eu já estava lá esperando, para a gente ver um filme, comer algo e ficar por lá a tarde toda. Viramos super amigas, eu achava ótimo, pois as vezes, no final da tarde, os meninos jogavam “golzinho” lá na rua de trás e eu queria jogar, mas não queria deixar a Clara sozinha, então elas ficavam em casa assistindo Tv, enquanto eu ia jogar por uma hora, mais ou menos, e voltava. Foram muitos meses de amizade e a mãe da Clara, incrivelmente, gostava da Letícia.

Letícia trabalhava e já fazia faculdade, era super inteligente, adulta e as pessoas a respeitavam por isso. Então, tivemos a ideia de pedir para Letícia convencer a mãe da Clara a transferir ela para uma escola melhor. Feito! A mãe dela concordou e, enfim, pudemos estudar no mesmo bairro. Nesse ano eu estudava de tarde e Clara de manhã, não me lembro como, mas Clara conseguiu um curso de informática a tarde, acho que foi coisa da Letícia… essa parte realmente eu não me lembro, mas recordo que a Clara passou a ficar o dia inteiro no bairro que eu estudava. Ela não tinha dinheiro para almoçar, então levava uma marmita para a escola e comia fria, antes de ir pro curso. Eu cozinhava pela manhã, para poder levar para a escola, então tive a ideia de fazer marmitas e levar para ela, afinal, comer comida fresquinha era melhor que dormida e fria! Essa era a minha saga, três vezes por semana. Era ótimo encontrar a Clara, mas, às vezes, acabava encontrando a Letícia junto. Normal, éramos amigas.

Clara aos poucos foi ficando diferente, mudou o jeito de menina inocente, começou a ficar mais distante, parecia querer amadurecer logo, e eu comecei a sentir essa mudança mais ou menos repentina. Ela já não falava de sonhos, não achava mais graça nas brincadeiras bobas que eu fazia, sentia uma mudança, eu perguntava se estava tudo bem e ela sempre me abraçava e dizia que sim. Os meses foram passando e aquilo que eu achava que facilitaria nossa vida, de alguma forma, acabou esfriando a nossa relação.

Eu ficava me perguntando se ela achava que a nossa relação era boa apenas quando estava difícil e que, quando passamos a ter mais liberdade, teria perdido a graça. Sempre que eu encontrava com a Clara, nós nos abraçávamos e passei a perceber ela se sentindo incomodada em me abraçar em público. Eu não entendia nada!

Clara ganhou um celular nessa mesma época e disse que foi uma tia quem havia dado para ela. Achei estranho, mas era bom saber que ela tinha um celular e eu nunca a questionava muito. Sempre deixei a Clara a vontade para ficar comigo, não exigia nada dela, eu apenas me doava. Foi quando comecei a notar algo diferente nela.

Viramos o ano, era já março de 2004 e Clara cada vez mais estranha, mas todas as vezes que eu perguntava ela sorria, dizia que eu estava criando coisas, me abraçava e a gente ficava feliz o dia inteiro. Um dia, Clara foi super grosseira comigo, fiquei muito triste, cheguei em casa bastante chateada e minha irmã perguntou o que tinha acontecido, eu respondi que achava que estava sendo muito insegura com a Clara e que ligaria para ela, para pedir desculpas pela insegurança. Foi aí que minha irmã me chamou no quarto e falou:

– Não precisa pedir desculpas para ela! Leia!

Havia uma carta nas mãos dela, com a letra da Clara. Logo a peguei e comecei a ler, não conseguia entender, pois todas as cartas que a Clara havia me dado eu sabia de cor. Não! Não era uma carta dela para mim, era uma carta da Clara para a Letícia. O Thiago havia mexido na carteira da Letícia, para pegar um cartão de crédito, e viu um papel dobrado. Ele curioso, abriu e leu, e percebeu que era a letra da Clara, pois eu sempre mostrava as cartas dela para ele. Ele, para tirar a dúvida, entregou a carta para minha irmã, para ela pegar uma carta da Clara, nas minhas coisas, e comparar a letra. Putz, era a letra da Clara!

Eu li a carta, que começava com “Letícia meu amor, muito feliz por estar comemorando 1 ano ao seu lado”. Não me lembro do resto da carta com clareza, mas me lembro que elas estavam comemorando 1 ano de relacionamento.

A decepção não cabia no meu peito. Passou um filme da nossa história na minha cabeça e as perguntas de “Onde eu errei?” e “Por que?” começaram a surgir. Passei a noite inteira acordada, pensando! O mundo tinha acabado de se abrir debaixo dos meus pés. “E agora?”, eu ficava me perguntando. Bom, para Letícia não desconfiar, pela manhã cedinho, tiramos uma xerox da carta e minha irmã devolveu pro Thiago colocar de volta no lugar. Liguei para a Clara e para a Letícia:

– Vamos ver um filme mais tarde?

– Vamos!

Tudo ok! As duas confirmaram. Cheguei na casa da Letícia com o coração na goela. Ela me cumprimentou como sempre e Clara me deu um selinho, “oi amor“. Passaram alguns minutos desde a hora que eu cheguei, Clara estava sentada no sofá, Letícia em pé no corredor e eu sentada no outro sofá. Perguntei:

– Meninas posso fazer uma pergunta para vocês?

– Pode!

– Pode!

Eu, então, perguntei:

– Vocês já ficaram?

Letícia prontamente respondeu:

– Tá louca amiga? De onde você tirou isso?

Clara me olhou com olho arregalado e falou:

– Meu amor, nunca faria isso!

Meu ódio aumentou naquele momento, eu havia dado a chance delas serem honestas comigo e elas foram muito piores do que eu imaginava. Entreguei uma cópia de uma carta para a Clara e perguntei:

– Então como vocês me explicam isso?
Eu nunca vou me esquecer da Clara abaixando a folha de papel e olhando para a Letícia com uma cara de quem diz “Como você pôde deixar isso vazar?”. De imediato, tirei minha aliança e a joguei em cima da Clara.

Vocês tiveram a chance de me dizer a verdade, eu iria entender, mas a partir de hoje, nunca mais olhem para mim. Acaba aqui tudo! Letícia tentou me segurar para conversar, mas, para mim, já não havia mais nada a ser dito.

Saí da casa da Letícia completamente arrasada, com coração partido. Chorei muito, fui direto para casa da Marina, A mãe da Mari me abraçou e me consolou.

Capítulo 5

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