Claraaa! Para Casa: Conchas, Água e Areia

Postado: 13 out 2020 | 0 comentários

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Conchas, Água e Areia

Meados de 2003

Clara não saia de minha cabeça, já estávamos mais da metade de 2001 e eu quase para enlouquecer pois ela era o meu primeiro e último pensamento do dia. Eu desejava mandar flores, ficar deitada num jardim olhando o céu e dizendo poesias ao pé do ouvido dela. Sonhava acordada com o momento de poder me declarar. Mas era muito difícil, Clara começou um namorico com um garoto da igreja. Isso me dilacerou, contudo, todas as vezes que a gente se encontrava, eu podia sentir seu coração acelerado e sua respiração mudando. O abraço que ela me dava era incrível.

Logo depois ela terminou o namorico com o garoto, uns dias depois, ela apareceu na minha casa, estava linda, pronta para ir ao culto, usava um vestido longo prateado que… Meu Deus! Era a coisa mais linda do universo! Ela entrou na minha casa, eu estava sozinha, ela me abraçou, e eu decidi tentar beija-la. Que tragédia! Ela ficou super sem graça e foi embora correndo. Eu me senti péssima e disse antes dela sair: Para de me provocar se você não me quer! Ficamos semanas sem nos ver. Passei a frequentar a mesma igreja que ela, ia aos cultos vestida de calça jeans e camiseta, o que me destacava entre as meninas, pois todas usavam saias longas, e isso já era motivo suficiente para que todas as pessoas da igreja me julgassem. A mãe da Clara me detestava tanto que ela chegou a dizer na igreja que minha família era envolvida com o “demônio”.

De certa forma, era legal frequentar a igreja. Eu fiz amizade com os meninos, algumas meninas gostavam de mim também, menos as mães deles todos, por causa das mentiras que a mãe da Clara contava sobre a minha família. Penso que ela acreditava que eu era uma “ameaça” para a vida de sua filha. Ah! Se ela soubesse o quanto eu queria bem a filha dela. Aliás, provavelmente, por ela saber o quanto eu queria bem a filha dela, ela repudiava minha presença.

Era muito difícil, nem na igreja a mãe da Clara me dava paz, ela sempre implicava com a nossa amizade. Na saída do culto, Clara chegava muito rapidamente perto de mim, com um sorriso de canto, acho que de nervoso, e dizia:A paz do senhor irmã.
E eu respondia, segurando a vontade de rir:

– A paz do senhor irmã.
Mal terminávamos de nos cumprimentar e já víamos sua mãe, com a “cara fechada”, passar falando grosso:

– Para casa Clara!
Eu morava ao lado da igreja, muito próximo mesmo, somente a rua, uma calçada e uma casa separava a minha casa da igreja. Assim, eu permanecia na porta da igreja, por algum tempo, olhando a Clara ir embora, dava para ver ela longe até “perder de vista”, quando virava na rua da escola. Seguimos assim por muitos meses, até que eu cansei de ir para igreja, pois não acreditava nas coisas que diziam lá, não via muita verdade. Isso foi bom, pois a mãe da Clara parou de me ver e esqueceu um pouco de mim. Passei apenas a passar na rua da Clara, como sempre fazia antes, assobiava e Clara, prontamente, aparecia lá na rua, para minha alegria!

Em dezembro de 2001, minha família decidiu que passaríamos as férias na casa de uma tia em Fortaleza. Pode imaginar a agonia? Ficaríamos quase dois meses por lá. Nessa época eu não tinha celular, e era tudo muito difícil para se comunicar. Fiquei a viagem inteira contando os dias para voltar. Juntei o dinheiro que minha mãe me dava e corri para comprar um cartão telefônico para ligar na casa da Marina.

– Alô, Mari? Você pode ir na casa da Clara e pedir para ela vir na sua casa, para eu falar com ela? Ligo novamente em 15 minutos.

– Tá bem amiga, vou lá!
Marina era uma baita amiga, eu sei que ela sacava, mas era super discreta.
15 minutos depois:

– Alô, Clara?

– Oiiiiiii como você está? Estou morrendo de saudade de você! Como é a praia?

Nesse momento eu só ouvia a voz dela como quem ouve a voz de um anjo salvando meu coração de toda saudade que eu estava sentindo. Poucos minutos e os créditos do cartão acabaram, nem deu para dizer um “tchau” direito.

Ficaríamos em fortaleza até dia 25 de Janeiro de 2002, porém minha mãe decidiu que a gente voltaria antes, então, saímos de lá dia 22. Como não havia como avisar a Clara que eu estava voltando antecipadamente, só fui feliz por estar indo antes do esperado. Eu ficava imaginando como seria levá-la à praia, correr atrás dela e jogar uma bola de areia no meio de suas costas e ela virar irada comigo querendo me pegar, mas não conseguir por eu ser muito mais rápida que ela..

Eu sonhava muitas coisas legais para viver com ela. Quando chegamos em Brasília, dia 24, depois de dois dias na estrada, eu fui até a casa dela, mas estava tudo fechado. Não havia ninguém, nem na igreja, nem em canto
algum, e um garoto da igreja me parou na rua para dizer:
“Sua amiga da igreja morreu!”
Eu quase infartei!

– Pelo amor de Deus, que amiga?

– A ex do Izaque.

Meu mundo havia caído naquele momento, pois Izaque havia namorado muitas meninas da igreja, mas eu não fazia ideia do que estava acontecendo, até que veio a confirmação… a garota que morreu era uma outra menina, não a Clara. Foi uma mistura de alívio com desespero pois a garota era jovem e havia tomado comprimidos para emagrecer. Uma pena.

Fui, então, na casa do meu melhor amigo, o Thiago, e pedi para ele chamar a Clara. Pasme, eu sempre tinha que pedir alguém para chamá-la, pois a mãe dela me odiava mesmo!

Thiago foi lá, chamou ela e eu me escondi atrás de um carro. Thiago perguntou se ela tinha notícias minha, e ela prontamente respondeu: Rozy está aqui, eu estou sentindo o perfume dela!

Eu sai de trás do carro, com o sorriso que não cabia em meu ser, a gente se abraçou forte como se tivéssemos há 1 ano separadas, e era quase isso mesmo, uns 45 dias. Levei conchas da praia para ela, areia e um pouco de água para ela saber como era. Presente mesmo eu não pude dar, pois a mãe dela jogaria fora.

Nesses anos todos que estivemos juntas, como amigas, eu sempre dividia minhas coisas com ela. Minha mãe comprava absorvente, desodorante, gilete, tudo! Tudo que eu pegava eu dividia com ela. Sabonetes, shampoo. Por isso, a mãe dela nunca brigou dela receber, até por que eles eram muito pobres. Eu levava lanche para ela na escola e dividia até os passes escolares. Realmente, eu com meu instinto protetor, queria sempre vê-la bem e feliz. Bom, então voltando para o momento em que voltei de férias, a gente se escondeu numa construção abandonada e ficamos lá o dia inteiro conversando e olhando pro céu, lá de cima do terceiro andar, onde ninguém poderia nos ver. Comemos uns biscoitos e refrigerantes que eu levei na mochila e ficamos lá até escurecer. Ela me disse: “Se eu for agora eu vou apanhar do mesmo jeito de se eu for mais tarde, então, quero ficar aqui com você!”. Ficamos lá abraçadas olhando as pipas no céu, as pessoas passando e ouvíamos a mãe dela gritar: “Claraaaaa cadê você?”. E a gente sorria e se escondia para ninguém ver nenhum pedaço da gente. Quando fomos embora ela correu para casa, não me lembro o que ela disse para mãe dela mas ouvi ela apanhar. Foi horrível ouvir e não poder fazer nada. Fui para casa bastante triste mas feliz que tivemos um dia juntas. Passaram alguns dias, ela estava de castigo pelo sumiço, então ela ligou na minha casa e eu estava sozinha… Era a manhã de 29 de Janeiro de 2002, ela disse que precisava muito me ver e perguntou se poderia ir na minha casa e eu, prontamente, disse sim! Chegando em minha casa me lembrei do dia que tinha tentado um beijo e deu tudo errado, então decidi que não iria mais tentar nada. Se algo fosse acontecer, teria de partir dela! Assim fiz.

Ela chegou, me abraçou forte, cheirava meu pescoço e minha pele arrepiava toda, sentia o coração bater dentro da minha calcinha, e era uma sensação muito diferente, eu entendia que estava excitada, bêbada de paixão, até que ela pegou um pedaço de chocolate colocou entre os dentes e mexia ele para lá e para cá, e me perguntou: “Quer ? Vem pegar!”.

Meus olhos encheram de lágrimas, fui em sua direção, meu coração parecia querer chegar primeiro que meu corpo, a textura da boca dela encostando na minha, pela primeira vez, o filme que veio na minha cabeça era: eu esperei por esse momento desde que te conheci. Senti a saliva dela misturando com a minha, a língua tímida encostando e se entrelaçando na minha. Não era um beijo muito bem dado pois nenhuma de nós tínhamos experiência, mas foi o beijo mais incrível de toda minha vida. Foi o beijo que mudou tudo. Eu chorava, ela chorava, e riamos ao mesmo tempo de tanta emoção. Beijamos o dia inteiro sem parar, cada vez mais intenso, mas ao mesmo tempo delicado, suave. Eu descobri ali o quanto eu a amava profundamente, e o quanto aquele momento seria nosso para sempre. Parecia um sonho, as vezes no meio do beijo eu pedia para ela me beliscar, com medo de ser só mais um dos meus sonhos.

O beijo foi se encaixando a cada segundo. Então, como eu já sabia que meus pais estavam prestes a chegar, ela foi embora. Quando ela foi embora eu dançava e pulava de alegria. Só queria encontrá-la novamente para gente repetir tudo.

No dia seguinte, nos encontramos e ela estava estranha. Normal, ela era evangélica, tinha toda a culpa dentro de si por conta da doutrina, e eu entendi perfeitamente e só disse a ela: Deus ama você do mesmo jeito que me ama.

Não estamos fazendo nada de mau para ninguém. Ela continuou alguns dias estranha, mas foi só ficarmos juntas novamente que os beijos rolavam, cada vez mais intensos. Eu sempre ficava com a roupa íntima encharcada e ela também, mas não falávamos nada sobre isso, tínhamos muita vergonha. Depois de um mês que a gente estava ficando, eu a pedi em namoro. Comprei um par de alianças de prata, escrevi nossas iniciais e trocamos alianças. Era uma saga sem fim, ela chegava em casa tirava a aliança e escondia, e eu também. Foram longos meses em que a gente namorava escondido de tudo e de todos, até que meu melhor amigo, Thiago, pediu para ficar comigo e eu não sabia o que dizer a ele, pois eu amava a Clara e não me imaginaria beijando outra pessoa. Por medo dele desconfiar que eu era lésbica, aceitei.

Fomos para atrás da banca de revistas e demos um beijo xoxo, sem graça. Foi quando eu tive coragem e falei:

– Amigo, eu nem queria ter te dado esse beijo, eu preciso te
contar!

Eu estou namorando com a Clara.
Ele só olhou e disse:

– Eu já sabia, isso aqui foi só um teste!

Ficamos ali rindo de toda essa situação e contei essa história ,que estou escrevendo aqui, para ele. Foi um alívio, pois semanas antes, meu pai havia descoberto uma carta que eu ia mandar para a Clara. Meu pai foi pegar uma folha no meu fichário e viu a carta. Ele leu e me chamou no quarto para saber do que se tratava. Contei que era para a Clara. Eu havia passado dias indo à psicóloga, clichê né ? Mas tive que ir. Meu pai falou olhando nos meus olhos que todos os meus amigos iriam se afastar de mim quando soubessem que eu era “sapatão” e, naquele momento, tudo caía por terra!

Eu estava muito feliz por meu melhor amigo ter entendido e me dado apoio. Ele começou a me dar cobertura, já que morava na rua da Clara. Ele a chamava, ela entrava escondida na casa dele e eu entrava depois. Passávamos a tarde assistindo tv. Com o tempo Thiago se aproximou da minha irmã mais nova e logo eles começaram a namorar.

Formávamos um quarteto fantástico! Clara disfarçava, entrava com minha irmã e eu disfarçava entrando com o Thiago. Passávamos o dia inteiro jogando video game, felizes, e sempre dava um jeito de fugir pro quarto para poder dar uns beijos na Clara, sem ninguém observando.

Eu tinha acabado de ganhar o meu primeiro celular, nossa que alegria ganhar um celular! Facilitou muito a comunicação com a Clara. Mapeamos todos os “orelhões”, como chamamos aqui os telefones públicos, de todas as ruas próximas às nossas casas. Fomos a cada “orelhão”, dando um único toque para o meu número de celular e eu salvava na agenda o telefone com o endereço. Nosso plano funcionou muito bem, pois a Clara me ligava de um desses “orelhões” e aparecia no visor do meu celular o local de onde ela estava me ligando, logo, eu já sabia onde encontrá-la. Eu sempre dava um jeito para facilitar nossa comunicação e o celular foi um item importantíssimo!

Eu e Clara estávamos cada dia mais apaixonadas e não demorou para chegar a curiosidade… Ela um dia soltou “Minha calcinha fica parecendo que fiz xixi na roupa”.

Então eu falei que ficava assim também e que era normal. Apesar de eu não saber muita coisa, entendia um pouco mais do que ela, então tentava sempre a acalmar e deixar tudo naturalmente explicado. Ela dizia que sentia umas coisas quando eu a beijava e eu disse que sentia também.

Então, no meio do beijo, eu desci um pouco a mão da cintura para a bunda dela. Tomei um esporro: “Não pega na minha bunda! Me respeita!”. Eu travei, fiquei sem graça e pedi desculpas. Aos poucos a gente foi se tocando, e cada vez que nos encontrávamos os toques eram mais íntimos.

29 de Agosto de 2002, era nosso “mêsversário” de namoro. Meus pais não estavam em casa e eu avisei para ela, através da Marina, para ela ir para minha casa. Nos beijamos loucamente, eu sabia cada detalhe do corpo dela, cada pinta, cada cicatriz, cada pontinho branco, cada estria. Eu tinha mapeado tudo em minha cabeça. Tirei a roupa dela com a boca, e fui beijando os seios com toda delicadeza e cuidado do mundo, beijei entre seus seios, que eram lindos, tão redondinhos, com mamilos pequenos que arrepiaram no meu toque, e fui descendo passando a língua no corpo dela. Mesmo sem saber se estava fazendo o certo, segui todo o meu instinto. Cheguei no umbigo dela, era lindo, tão perfeita criatura de Deus, olhei para cima para ver o rosto dela, ela estava mordendo o canto da boca tentando olhar para mim, foi quando comecei a tirar a calcinha dela, encharcada. Quando tirei a calcinha dela, senti ela travar e falei:

– Se você não se sentir pronta, não se preocupe, eu não tenho pressa, te esperei tanto tempo..
Então ela disse:

– Vai, eu quero!

Meu coração quase chegou primeiro que meus lábios. Eu estava tendo a minha primeira relação sexual da vida, com a garota que eu amava, e o olho marejava e eu só pensava o quão maravilhoso era estar ali, sentindo o cheiro, beijando de leve e sentindo ela soluçar de emoção com tesão e medo, tudo ao mesmo tempo.

Quando encostei minha língua nela, eu não sabia como fazer, o que fazer, eu só queria sentir o gosto inteiro dela, e era maravilhoso tudo aquilo, senti ela gemer e tentar esconder o gemido. Abri as pernas dela com delicadeza e fui mais fundo, sentia ela toda molhada como se tivesse um vazamento de água… os sussurros dela me deixavam louca, até que senti um gosto diferente, meio amargo e ela travou e falou:

– Para! Para!

Eu parei no mesmo instante e ela desesperada só falou: me deixa ir no banheiro. Saiu correndo pro banheiro, ficou lá quase 40 minutos. Fui lá e perguntei se estava tudo bem, e ela me disse que a menstruação havia descido. Ou seja, eu tive duas experiências loucas no mesmo dia. Mas não tive nojo nem nada. Acho que sempre fui muito madura para as coisas e sempre levei tudo com naturalidade e empatia. Deixei ela à vontade e disse que tava tudo bem! Depois desse dia, todas as vezes a gente se encontrava e fazíamos amor, era amor mesmo, era genuinamente lindo.

Não tínhamos maldade em nada, nos descobríamos juntas, dia após dia.
Apesar de toda a nossa intimidade, eu nunca conseguia me sentir à vontade para ser passiva na relação. Eu tinha muita vergonha do meu corpo, das minhas partes íntimas. Todas as vezes que ela, delicadamente, tentava chegar perto, eu travava e não conseguia deixar ela me tocar. Na época, eu tinha na minha cabeça que ela era delicada demais para ter um papel que era “meu”, mas hoje analisando, sei que era uma trava emocional minha. Foram meses incríveis ao lado da Clara, dias lindos e de muito carinho, muito afeto, éramos muito ligadas, muito próximas, não nos desgrudávamos um minuto sequer. Enfrentávamos qualquer dificuldade para estarmos juntas. Quantas surras ela levou e eu tive que escutar lá da esquina da casa dela e tantas vezes que pensei em desistir de tudo para não ver mais a Clara sofrer as agressões da mãe dela. Foram muitos momentos difíceis!

Então, encontramos uma maneira de nos ver sem deixar pistas…

Continua…

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