Claraaa! Para Casa: O Plano

Postado: 19 out 2020 | 0 comentários

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O Plano

Brasília, 2003.

A mãe dela saia de casa, para trabalhar, às 7:00 da manhã e os irmãos iam para a escola às 7:15. Eu estudava de manhã e a Clara a tarde, então matava aula para ficar com ela na casa dela. Saía de casa e ia para uma rua perto da dela, de onde eu tinha a visão panorâmica de tudo. Via a mãe dela sair de casa, em direção ao ponto de ônibus, e ia seguindo de longe os passos dela, para ter certeza que havia entrado no ônibus. Feito! Voltava correndo e via os irmãos dela chegarem na porta da escola, que era perto da casa dela, então eu esperava o movimento da rua parar, lá não era muito movimentado, mas esperava qualquer vizinha fofoqueira não estar a postos, e entrava na casa dela.

Pensa na emoção que era! Entrar na casa dela, deitar na cama dela, que tinha o cheiro dela todinho, aquele cantinho que era só dela, e só eu deitei? Os beijos eram tão perfeitos, passávamos horas beijando até não aguentar e tirar a roupa inteira. Eu amava sentir meu corpo encostar nu ao dela. O mundo poderia acabar lá fora que não me importaria. Inúmeras vezes fizemos isso, sem sermos descobertas, sem ninguém saber e isso era o máximo! Eu sempre fui muito sensitiva, todas as vezes que eu dizia “Preciso ir embora!”, saía da casa dela, virava a esquina eu esbarrava com os irmãos dela, voltando da escola, ou com a mãe. Pasmem, era sinistro isso! Óbvio que algum dia alguém ia chegar e pegar a gente lá… e assim foi. Em mais uma missão de seguir a mãe, seguir os irmãos, esperar a rua tranquilizar, entrar na casa dela e fazer tudo que a gente tinha vontade, eu falei “preciso ir embora!” e a Clara disse:

– Mas tá cedo! Ainda não são nem 9 horas!

– Tá bom então, fico mais um pouco!

Minutos depois escutamos um barulho no portão, coração foi no céu, o estômago chega doeu, quem será? E agora? Era um dos irmãos dela, que não teve aula no dia. Me escondi debaixo da cama, ele entrou e enrolou na cozinha. A casa era pequena, só tinha dois cômodos e um banheiro. Quando ele entrou no banheiro dava para escutar o barulho do xixi dele, o fluxo estava forte então daria tempo de um beijinho para despedir e o sinal para ir embora foi o fim do xixi, seguido da descarga. “Correeee Rozy!”. Fui embora morrendo de rir da situação! E se fosse a mãe dela? E se fosse a família toda? Tínhamos sempre um planejamento! Ela me encontrou minutos depois, e conversamos sobre isso, tomando um sorvete de flocos, que era o favorito dela.

Passaram-se os dias, e mais um encontro como esse aconteceu. Dessa vez quando eu estava saindo da casa dela, o irmão dela me viu. Foi horrível a sensação de ser pega. Ele fez uma cara… e fui falar com ele:

– Cara, não conta para sua mãe que você me viu, ela vai bater na Clara de graça!

– Se você me der 2 reais eu não conto!

Começou ali uma sessão de tortura psicológica, o moleque começou a ameaçar todas as vezes que ele precisava de dinheiro. Era pouco mas pensa a raiva que eu ficava? Foram muitas situações assim!

– Rozy me arruma 2 reais aí!

– Rozy paga um sorvete!

– Rozy compra uma pipa!

– Rozy compra um refri!

– Rozy arruma ficha do fliperama!

Até que um dia, jogando bola na quadra, ele arrumou briga com um moleque envolvido com o tráfico de drogas. O moleque era meu conhecido, então prontamente o abordei e apaziguei a situação. Quando o Pedro veio tentar me extorquir novamente eu imediatamente falei: “Se você contar para sua mãe, eu conto que você arrumou briga com um traficante!”. Ufa! Finalmente um pouco de paz por algum tempo.

Pedro sabia que eu e Clara tínhamos um relacionamento, aliás todo mundo já sacava. Vira e mexe, alguém via a gente em algum lugar perto, então eu sabia que tínhamos que parar de andar ali nas redondezas, para nossa proteção. A gente já não se encontrava mais na casa dela pela manhã, eu havia estourado o máximo de faltas do bimestre, precisávamos viver coisas novas. Mas como? Eu não trabalhava, não tinha dinheiro para fazer as coisas, quem diria a Clara. Então tive a ideia de vender amendoim na escola.

Minha mãe fazia os amendoins crocantes de chocolate e eu vendia. Foi um sucesso! Peguei o dinheiro, comprei uns tênis vindos do Paraguai e vendi pelo dobro do valor. Assim eu ia me virando para ter dinheiro para irmos ao cinema, almoçar, fazer coisas fora do nosso bairro.

Eu estudava em outro bairro e a Clara estudava no mesmo em que nós morávamos, isso era muito ruim, pois sempre uma tinha que matar a aula para gente conseguir se ver. Mas era o que tínhamos, então, aproveitávamos muito esse momento. Uma vez ao mês a gente dava um jeito de ir pro cinema, podíamos nos beijar em público. Eu sempre ia com uma touca e um casaco, como éramos adolescentes, de touca no escuro, disfarçava bem. As pessoas achavam que éramos um casal hétero, tudo certo! Saíamos do cinema cada uma para um lado, para disfarçar, depois nos encontrávamos para comer um lanche e irmos para casa.

O que mais queríamos era dar um jeito da Clara também estudar no mesmo bairro que eu estudava, facilitaria tudo! Mas como fazer isso? Não fazíamos ideia de como fazer a mãe dela a transferir de escola, afinal, ela mal tinha chinelos, quem diria ter dinheiro para a passagem para ir à escola.

Capítulo 4

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