Claraaa! Para Casa

Postado: 9 out 2020 | 0 comentários

Descobertas, medos e desejos.

SOBRE
Por Rozy Acioli em parceria com A Letra L.

Relatos de uma história real.
Esse e-book é baseado em uma história real, certos diálogos e cenas
descritas foram alteradas com propósitos dramáticos. As identidades
de algumas personagens foram alteradas para preservar a privacidade
das pessoas.


Essa poderia ser só mais uma história de amor, paixão, mas essa é a história do amor proibido que vivi. Cheio de descobertas, medos e desejos.

Bom, me chamo Rozy e vou te contar a minha história de amor com a Clara…

Que Sorriso Incrível

Brasília, abril de 2000.

Eu estava muito triste pois havia mudado de escola no meio do ano letivo por conta de um desentendimento com uma outra aluna que chegara a me ameaçar de morte, ela era de uma gangue de “pixadores”, e eu era alguém que sempre se metia em confusão mesmo sem entender o que “tava rolando”. Eu estudava numa escola e a amava, quando me mudei para outra escola recebi um bilhete de uma amiga que dizia “É incrível a força que as coisas parecem ter, quando elas precisam acontecer”. Eu só fui entender essa força um tempo depois.


Me lembro de toda a história! Mesmo hoje estando no ano de 2020 e já ter vivido inúmeras histórias, essa me marcou.

Bem… Fui transferida para essa outra escola e lá, na primeira semana, fiz amizade com duas meninas que eram melhores amigas, inseparáveis! Logo me juntei à elas e começamos uma baita amizade. Todos os trabalhos de grupo fazíamos juntas na escola, até que um dia tive que fazer um em dupla e escolhi fazer com minha amiga Marina, que a gente chamava de Mari. Ela morava a duas quadras da minha casa. Marcamos de fazer o trabalho num sábado à tarde.

Marina morava numa casa simples, com mais 3 tias e cada tia tinha 2 ou 3 filhos. Finalizamos o trabalho de escola e resolvemos jogar bola na rua mesmo, no asfalto em frente à casa dela. Juntando todos os primos, montamos dois times tranquilamente e a gente se divertiu muito naquele dia.

Só que uma coisa me deixou intrigada: encostada no poste de energia da rua, havia uma menina que as pessoas da rua chamavam de “morena cor de jambo”, eu nem sei o que é “cor de jambo”, mas era assim que sempre descreviam ela na rua. Linda, cabelos lisos pretinhos quase na cintura, olhos bem redondos meio puxadinhos, o sorriso? Ahhh! Que sorriso incrível, com aqueles dentes brancos feito nuvem e as covinhas nas bochechas que matariam qualquer um só de olhar. Ela vestia uma saia preta longa, uma blusa azul bebê com florzinhas por toda estampa, uma camisa, por cima, dessas de botões com gola, descalça e observando tudo, quando me chamou:

– Oi menina, você não se machuca jogando bola com os meninos?
Prontamente respondi:
– Não!
E ela tornou a perguntar. Isso, de certa forma, me irritou e eu chamei ela para jogar queimada. Ela no time de lá e eu no de cá. Pensei comigo mesma: Ela vai ver se eu me machuco jogando!

Sempre fui uma pessoa muito competitiva e ser de desafiada era ótimo, eu amava. No meio da brincadeira eu acertei a bola com muita força nela, e ela chorou. Corri, a abracei e pedi desculpas. Foi o bastante para mexer com toda a minha estrutura emocional. Eu me apaixonei à primeira vista por ela. Digo à primeira vista por ter sido exatamente no momento em que olhamos olho no olho. Do nada alguém grita de longe:

– Claraaaaaaaaa passa para dentro agora!

Era a mãe dela! Dava medo só de olhar para ela. Tinha pernas finas e da cintura para cima era larga, andava com os braços abertos e com uma cara de poucos amigos.

Ela realmente causava medo na rua inteira. Clara foi para casa, então peguei minha bicicleta e fui embora. Quando estava passando na frente de sua casa, ela me chamou na calçada, para mostrar a marca que a bolada que eu dei deixou nela. Nesse momento a irmã mais nova dela apareceu, Talita, toda descabelada, devia ter uns 6 anos de idade, naquela fase tagarela, já foi logo falando:

– Sabia que a Clara não vai para escola por que não tem chinelo?

Eu fiquei branca com aquela informação. Ela gritou com a Talita dizendo “Vai para dentro de casa menina!”, então eu perguntei se era verdade e Clara, com os olhos marejados, disse que sim. Pronto! Agora minha meta seria, fazer Clara voltar à estudar. Clara tinha 12 anos e eu 14. Eu sai dali com uma única certeza: queria ir naquela rua brin car com aquela menina todos os dias da minha vida!

E assim o fiz! Saía da escola, descia 3 pontos de ônibus antes da minha casa, para passar na casa da Marina, é claro, e pedia para Marina chamar a Clara para brincar, pois eu tinha receio da mãe dela.

Consegui chinelos para a Clara voltar para a escola e, de quebra, dividi parte do material escolar que eu sabia que poderia ajudá-la. Criamos uma amizade linda, mas meu coração batia muito forte todas as vezes que eu a via.

Ela chegava muito perfumada, com um perfume usado que ela ganhou de uma tia. Sempre linda, cabelos lindos, sorriso lindo. Sempre com saia lá no pé pois ela era de família evangélica. Para minha alegria, a igreja que ela frequentava era na esquina da minha casa. Eu podia ver a Clara todos os dias depois da aula e podia vê-la sábado e domingo ao lado de casa.

Ela era a figura mais linda e delicada que eu já havia visto em toda a vida. Eu estava completamente apaixonada. Mas sabia que além dela não saber disso, também tinha tudo para ser apenas um amor não correspondido. Cada dia que passava eu me aproximava e me apaixonava mais por ela. O cheiro dela era como calmante para minha confusão inteira. Foi muito difícil disfarçar. Nos víamos todos os dias da semana, até que um dia eu decidi ir à igreja. De lá fomos eu, ela e as filhas de uma “irmã” da igreja para casa dessa irmã. Quando chegamos lá, as filhas da “irmã” da igreja foram para a cozinha assistir novela mexicana, escondidas, pois a mãe delas não aceitava que elas consumissem coisas que ela considerava “mundanas”, enquanto Clara e eu ficamos na sala.

Era uma casa simples, tinha uma cortina que deixava a sala um pouco escura. Sentamos no sofá e nos abraçamos como nunca, eu podia sentir a artéria do pescoço dela saltar forte e os batimentos acelerando quando eu passava meu nariz perto de sua orelha.

Ela me apertava forte, e eu sentia o coração dela batendo assustadoramente forte encostado no meu. Eu nunca havia sentido aquilo antes. Uma sensação de medo, descoberta, adrenalina, tudo junto. Devagarinho fui beijando seu pescoço, com a boca entreaberta sentia o gosto do suor misturado com o perfume… até que escutamos um barulho alto do portão abrindo, e o grito “Claraaaaa para casa!”. A gente se soltou nos tremendo inteiras, senti medo da mãe dela me ver lá, já que não ia muito com a minha cara. A mãe dela entrou pelo corredor, que dava acesso à cozinha onde estavam as filhas da “irmã”, e eu consegui sair pela janela da sala. Corri para fora da casa o mais rápido possível. Lá no final da rua eu pude ver a mãe dela puxando ela pelo braço e levando ela com muita violência para casa. Voltei para minha casa com uma sensação muito maluca, com uma esperança de que pudéssemos nos descobrir juntas.

Eu já sabia que eu gostava de meninas, desde muito pequena eu me sentia diferente, mas como não tinha nenhum tipo de informação, eu não sabia o que eu era. Só me lembro de ouvir: “Larga isso, essa brincadeira é para menino”.

Então, eu cresci achando que eu era um menino! Quando entrei na adolescência, onde tive aula de educação sexual e na minha escola tinha um casal lésbico, foi que entendi que eu era uma menina que gostava de menina.


Capítulo 2

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